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| Coby Whitmore |
Haverá
vida depois de uma traição?
A
questão não é trivial, básica ou mesmo inconclusiva. Atinge uma enorme quantidade
de gente que se vê de súbito sem chão e sem tecto, suspensa da surpresa de se
sentir o outro ou a outra quando sempre acreditou que era a
origem e o fim de todas as emoções que povoavam o coração que agora se descobre
ser infiel.
Não
é fácil lidarmos com o facto de percebermos que a metamorfose que se opera em
nós é o inverso da das borboletas. De um fabuloso insecto alado e colorido,
embainhamos a alma e passamos ao estado de casulo. Mas não é impossível
enfrentarmos o facto de, nesse casulo, a membrana que nos separa do exterior
correr risco de ruptura, perfurada pelos aguçados chifres mafarricos que
ostentamos na testa metafórica.
É
evidente que a Gaffe já foi traída. Na altura, ficou afásica e posteriormente
catatónica. Recolheu-se na cela da sua mais profunda desilusão e decidiu que
jamais voltaria a acreditar em quem quer que fosse, sobretudo se o quem
quer que fosse tivesse
barba e outros atributos mais esconsos, dignos de fazer perder a transmontana a
uma rapariga mais incauta.
Neste
estado, acabou por evitar a todo o custo aproximações mais ou menos subtis de
promessas interessantes e credíveis.
Voltar
a acreditar é como beber um café que ficou frio. Jamais terá o sabor do
Expresso acabado de servir, mesmo que esse Expresso seja o da meia-noite. Ficamos
sempre com a sensação de que nele foi cometido um crime e que o cadáver se
transformou em borra no fundo da chávena.
Sair
deste estado de letargia emocional leva algum tempo, mas há sintomas de
progressos que não devemos ignorar e que não passam pelas tradicionais fases
descritas nos manuais da especialidade.