sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A perfeição dos tempos modernos

É aquela que toda a gente partilha, diariamente, nas redes sociais. É aquela que apresentamos aos outros em forma de publicação. Parece que actualmente todos somos felizes, todos comemos coisas maravilhosas, todos vamos a locais espectaculares, todos temos a família perfeita, os amigos ideias, parece até que hoje em dia somos todos atletas de alta competição ou especialistas em tudo e mais alguma coisa, parece que hoje em dia todos temos uma vida perfeita, a perfeição dos tempos modernos.
E é aquela que nos exigem todos os dias, porque uma fotografia mal tirada, um erro ortográfico, umas gorduras a mais, uma atitude que fuja daquilo que está previsto, uma afirmação com a qual os outros não concordem, um erro, uma forma de vida diferente, uma fuga às supostas regras, um simples assunto banal ou uma história que deveria ser privada se pode tornar viral, se pode parecer com uma notícia capaz de fazer mudar o mundo, parece que hoje em dia todos nos exigem que tenhamos uma vida perfeita, todos nos apontam os erros, o dedo, todos nos criticam, todos nos dizem o que está bem e o que está mal em nós, todos esgotam os assuntos de forma irremediável, é a perfeição dos tempos modernos. 
Parece que hoje em dia toda a gente a pode exigir, a tal da perfeição, porque já ninguém comete erros, já ninguém tem dúvidas sobre nada, toda a gente está em posse dela, da tal perfeição.

Talvez por isto eu goste cada vez mais de pessoas imperfeitas, por me identificar com elas, talvez porque a perfeição dos tempos modernos me assuste e eu não queira fazer parte disto.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Aquela pessoa #7



Que quer sempre ganhar o campeonato mundial das doenças.

Eu também estive assim com tosse mas pior. Cheguei a cuspir sangue. Sangue com ranho, claro, porque estava mais entupida que tu - tinha ranho até à testa. Saía-me pelos poros capilares e as pessoas pensavam que era cabelo oleoso.
Sei que agora não se nota, mas fiquei com danos irreversíveis nos pulmões. Não pior do que aquela vez em que tive uma infeção nos brônquios de fazer envergonhar qualquer doente terminal, claro.
Por isso não te queixes.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

que às vezes, é bom lembrar

- Falhamos a vida, menino! 
- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: «vou ser assim, porque a beleza está em ser assim». E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente.” 

― Eça de QueirósOs Maias

diferente não é mau. só diferente.

sábado, 17 de outubro de 2015

Duas lições de vida

4.ª aula - 4 de Dezembro

Querido diário:

Cheguei à aula dois minutos antes de ela começar. Avisei que ia tomar café porque estava a dormir em pé, e ameacei que, sem ele, continuaria a dormir sentada, ao volante. Procurava, assim, justificar igualmente a minha inaptidão de anteontem. O instrutor disse-me: "Força!". Se calhar, pensava que eu levava alguns dez minutos a tomar o café, mas enganou-se. Dois minutos depois, lá estava eu, pronta para mais uma. Ele disse que ia só à casa-de-banho, eu respondi "Força!", e ele literalmente correu para lá. Acho que anda cheio de nervos, coitado. Lá coisas da vida dele, certamente.

Sem qualquer justificação aparente, o carro que usei nas duas primeiras aulas continua na oficina. Portanto, apanhei outra vez com o da embraiagem só para mim. Hoje só meti um "prego". Amanhã não meto nenhum. Ele faz uma cara ai-minha-rica-caixa-de-velocidades, mas não se pronuncia grandemente. Suponho que vai consciente, inclusivamente porque me mandou outra vez para o deserto. Fartei-me de dar voltas e mais voltas naquele parque vazio. Deve ser um frete igual conduzir em Dakar (naquilo do Paris). Estive tentada a meter uma terceira, só para lhe mostrar do que sou capaz, mas não meti (porque não sou capaz).

Mesmo assim, ainda se aventurou comigo até ao Sporting velho. Já me confessou que é sportinguista, só pode ser por isso que me faz levá-lo a passear entre estádios verdejantes. Nessa rua, há cerca de três séculos em obras, enfiei uma roda num buraco, e ele gemeu. Capaz de aquilo na casa-de-banho não lhe ter corrido de feição. 

Eu sou uma condutora-aprendiz-instruenda inexperiente, mas não faço só disparates. Ainda faço bastantes, mas vou ao lugar. Por falar nisso, já estaciono o carro nos buracos mais pequenos que ele encontra. Pareço uma costureira, a enfiar a linha no buraco. É a melhor comparação que me ocorre agora.

Amanhã volto. 
Blue

~

5.ª aula - 5 de Dezembro 

Querido diário:

Bom, eu progrido na condução de dia para dia. Conforme prometi ontem, hoje não meti nenhum "prego". Ainda me dirigi para o lugar do passageiro, quando o instrutor me lembrou que eu ia conduzir, não passear, mas foi tudo. É só um vício que tenho que corrigir, apesar de estar convencida que não vou chumbar no exame por causa deste engano.

Quando acordei de manhã, pensei que ia, finalmente, fazer o meu primeiro dia de condução com chuva — que ia estrear os limpa-pára-brisas. Mas não, esteve sempre a ameaçar tem-te-não-caias, mas não choveu.

Hoje meti terceira! Íamos a descer a Av. Padre Cruz, ele disse-me aquelas palavrinhas mágicas, e eu engatei a mudança dos meus sonhos, em pleno complexo Buzz Lightyear, para o infinito e mais além!. Quinta lição, quinta dimensão. Mais adiante, um sinal vermelho. Travei, suavemente, e verifiquei que a cabeça do instrutor já não parece tanto uma bola lançada à parede quando eu travo. Nem quando eu arranco.

À entrada de uma curva, buzinei outra vez sem querer. Mas descartei-me assim: "Isto foi para assinalar a minha chegada. E também, ia ali um ciclista, era a ver se o fazia cair". Ele já vai começando a descontrair-se e até se ri de algumas coisas que eu digo. Falámos sobre crianças a aula toda. Ele só tem um filho, com 14 meses, de modo que eu tenho muito que lhe ensinar.

Mesmo na condução, tenho muito que lhe ensinar. Acredito sinceramente que ele vai ficar mais rico quando acabarmos estas aulas. E vai empobrecer quando me vir partir — a toda a velocidade — da vida dele.

Até terça.
Blue

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Tão simples, a perfeição.



Quanto mais as pessoas resistem à realidade, mais tempo demoram a vivê-la.

A imagem acima foi uma amiga minha que colocou no Facebook. É escusado dizer que nunca conheceu o seu homem perfeito
Vou pedir-lhe que deixe de procurar adjetivos (lindo, sexy, carinhoso, trabalhador, perfeito). Vou pedir-lhe, aliás, que deixe de procurar. Que se renda à única definição de perfeito que um homem tem (quer preencha ou não todos os itens da checklist imaginária). Um homem que a tenha em primeiro lugar. 

Não é fácil encontrar. Mas, uma vez encontrado. não há erros de identificação, nem irrealismo nesta perfeição. Juro. Eles andam aí.

domingo, 11 de outubro de 2015

tristezas não apagam facebooks*

triste tentativa de adaptação do "tristezas não pagam dividas".

há pessoas que propagam a própria infelicidade de forma crónica. nunca nada, em qualquer coisa que façam, vivam, sintam, está bem. a infelicidade corre-lhes no sangue como um parasita e sentem uma imensa dificuldade em viver para além disso. acarinham até, às vezes, aquele parasita com carinho, numa espécie de compreensão pelo responsável pelas próprias dores.
há pessoas muito tristes:

a rapariga, gorducha, feiinha, casada aos vinte, com quatro filhos aos vinte e cinco, está desempregada desde que estudou. é o marido, balofo de álcool e gordura, cara imensa, que a mantém, e à prole, trabalhando fora do país, que em portugal não há dinheiro para um só manter cinco.
a rapariga entra numa espécie de depressão que alimenta no facebook com concentração. espeta em fotografia de perfil as trombas maquilhadas do dia de casamento e em destaque a fotografia da prole, os putos todos, alinhados, muito direitos.
todos os dias escreve qualquer coisa. que a vida é uma merda, que tem saudades do marido e que lhe apetece morrer. em cada comentário destes alguém vem, muito solicito, com palavras de amizade "pk coisa?" e "k s passa?"
todo um rol de queixas: que o país é feio, que o marido está longe, que tem de, sozinha, tomar conta de quatro crianças. assim, ali exposto no facebook para os quinhentos e dez amigos. para quê ler um drama ou ir ao cinema quando basta abrir o pc? 
a mulher prossegue, todos os dias é esta dor.
enfim, o marido volta a casa, depois de tanta queixa, tanta ânsia, tanta tristeza e decide levá-la com ele, juntamente com a criançada toda. respiramos de alivio. deixa de haver ameaças de morte, frases de tristeza e citações brasileiras de saudade. 
portanto, tudo está bem quando acaba bem, certo?
não. na última semana a senhora, cansada da rotina, dos dias claros, da ausência de comentários e atividade no facebook, decidiu retomar a ladainha: pois que agora tem saudades de casa, não gosta de onde está, que lá não se faz nada e quer voltar para portugal. sempre com as trombas de casamento e a prole alinhada em fotografia de fundo.
tudo assim, ali escrito, com muitos ks e pks e estados e imagens de nossa senhora de fátima. e toda a gente outra vez, a perguntar k se passa, k tem ela, k dores são aquelas, que o país não foge.
todos os dias. é ou não é bom?

sábado, 10 de outubro de 2015

Diz-me como escreves, dir-te-ei quem és.

Quando aceitei o convite para escrever no Desblogue D'Elite instalou-se o pânico da página em branco, o que fazer quando não me apetecesse escrever sobre nada de especial? Como contornar a falta de inspiração? Depois pensei cá para os meus elos de corrente que não só nessas ocasiões mas sempre que achasse por bem, podia publicar um post escrito por mim há muito tempo. Sendo assim, aproveito que é sábado e que toda a gente que tem uma vida fora da internet está a fazer outra coisa qualquer que não a ler blogs e, como tal, pelo menos 2% das pessoas habituais não vão ler isto, para republicar um post.



Cenário: O dia nasce com um sol luminoso e quente depois de muitos dias de chuva. A blogosfera acorda para a vida.

- "Hoje está finalmente um dia lindo de sol, esperemos que tenha vindo para ficar" - Escrevem os que não têm nenhum post planeado e não fizeram nada de interessante desde o(s) dia(s) anterior(es).

- "Está um dia lindo de sol, aproveitem porque já fui confirmar e parece que é mesmo sol de pouca dura" - Escrevem os que gostam de dar as notícias em primeira mão.

- "O sol quando nasce é para todos." (Acompanhado de uma bela fotografia do sol) - Escrevem os fotógrafos.

- "Está muito calor para andar de gravata" - Escrevem os empresários.

- "Finalmente chegou o sol, posso ir treinar para a rua" - Escrevem os desportistas.

- "Queridos seguidores, finalmente chegou o sol, preparem-se para ver todas as peças que comprei nos últimos dias e ainda não tive oportunidade de vestir" (Acompanhado de uma fotografia com o look do dia, último grito na moda) - Escrevem as Fashion Bloggers.

- "O sol nasce brilhante / Veio só para te ver / Pelo mesmo motivo nasci eu / Só para te conhecer" - Escrevem os poetas.

- "Com este sol tão quente vou dar uma boa pinocada com a vizinha do 2.º Esquerdo" - Escrevem os Sexo Bloggers (não sei se é o termo certo).

- "Finalmente chegou o sol, posso ir passear com a minha princesa para o parque" - Escrevem as mamãs.

- "Com este calor fantástico vou publicar várias saladas e pratos leves para vos mostrar" - Escrevem as cozinheiras.

- "Ai... credo, com tanto calor ainda vou ter um colapso, não aguento mais, já me dói a cabeça, nem consigo trabalhar" - Escrevem as deprimidas.

- "Queridos seguidores, agora que finalmente o sol resolveu aparecer tenho montes de planos para o fim-de-semana, nem sei por onde começar, por favor, deixem-me sugestões" - Escrevem as indecisas.

- "Hello Sunshine!!!" (Acompanhado de uma bela fotografia de pés descalços na areia) - Escrevem as inspiradas.

- "Eu gosto é do verão, de passear de prancha na mão... (Acompanhado do video clip da respectiva música)" - Escrevem os musicais.

- "Finalmente chegou o calor, já posso ir para a praia passear com o D. e comer um gelado" - Escrevem as românticas.

- "A quinta-feira começou com sol, a norte ainda aparecem algumas nuvens pela manhã, mas ao longo do dia o sol vai brilhar por todo Portugal continental, as mínimas são de 17ºC e as máximas de 29ºC. Na madeira o sol também brilha, mas nos Açores continua a chover torrencialmente." - Escrevem os cientistas.

- "Só me faltam dois dias para acabar os exames e depois posso aproveitar este sol durante três longos meses" - Escrevem os estudantes.

- "Com um sol destes lá fora já não aguento estar aqui fechada dentro do escritório" - Escrevem as administrativas.

- "A minha pele arde quando me tocas, os meus olhos não param de brilhar quando te observo, quero sentir-te em cada poro do meu corpo. Sol..." - Escrevem as sonhadoras.

- "Protejam a natureza se querem que o sol volte a nascer. Perceberam?" - Escrevem os activistas.

- "Finalmente vou perder um pouco de apetite, com este calor" - Escrevem as que estão a fazer dieta.

- "Por favor, com este tempo fantástico se decidirem passar uns dias na praia não abandonem os vossos melhores amigos" - Escrevem os protectores dos animais.

- "O sol demorou a aparecer, acho que a culpa é do governo e do aumento nos impostos, acreditem que este facto se vai reflectir na economia" - Escrevem os preocupados com a nação.

- "Está um dia lindo por Lisboa, mas estou a entrar no avião para Londres, nem acredito que lá está um tempo horrível, ainda na semana passada quase morri de frio por lá, mas depois vou para Paris, espero que o tempo por lá esteja perfeito para pelo menos poder tirar umas fotos para vos mostrar" - Escrevem as viajadas.

- "Obrigado blogosfera, se não fossem vocês nem reparava que estava sol" - Escrevem os humoristas.

- "Foda-se para isto, já não posso ler post's sobre a merda do sol e da vidinha delas" - Escrevem os rabugentos.

- "Ai... Não querem ler sobre o sol não venham cá, o blog é meu e eu escrevo sobre o sol durante uma semana seguida se me apetecer, não gostam não venham cá, é melhor do que estar aí a criticar seus anónimos inúteis e imbecis" - Sem comentários.

- Nenhum post sobre o sol (Blogger com uma vida super interessante e ocupada que passou imenso tempo a fazer qualquer coisa de útil pelo país, tipo, pensar numa folga para aproveitar o sol)

- Post sobre as várias perspectivas de um simples dia de sol - Escreve A DESOCUPADA.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

25 por cento é muita gente


"De acordo com o Relatório da Agência Europeia para Segurança e Saúde no Trabalho, na Europa 25% dos trabalhadores dizem sofrer de stress no trabalho durante a maior parte ou a totalidade do seu horário de trabalho, e uma percentagem semelhante relata que o trabalho afeta negativamente a sua saúde." 

Gostava muito de vos escrever coisas bonitas hoje, mas na verdade está muito escuro e eu não vejo nada.

Um abraço a todos os que sofrem de alguma maneira, os que sofrem de qualquer maneira, e sobretudo os que sofrem sobremaneira.
Aquilo que tenho para dizer é que há, quase de certeza, num qualquer lugar, alguma atividade que nos faça realmente felizes.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Havemos de fornicar juntos

Por Patife



Esta noite acordei com um pesadelo tenebroso. O José Luís Peixoto estava a editar os meus textos. Garanto-vos que acordei com urticária psicossomática e uma camada de nervos tão grande que a insónia se prolongou manhã adentro. Para me entreter durante a insónia, comecei a pensar que se o Bocage e o José Luís Peixoto fossem um só, haviam de ter escrito textículos de profunda sensibilidade que se tornariam numa epopeia de exaltação nacional envolta numa carapaça estilística mais dura que o meu bacamarte. E se o Bocage e o José Luís Peixoto fossem um só, teriam escrito coisinhas lindas assim:

Havemos de fornicar juntos.

Normalmente, toda a gente está demasiado preocupada em colocar a sua barra na "cliente seguinte", estão ansiosos, nervosos, têm medo que aquele que está à frente lhes leve os pares de mamas, têm medo de encontrar um vestígio daquele que foi primeiro. Enquanto não lhes arrancam as cuecas e espetam a sua estaca, não descansam. Depois, não descansam também, inventam outras maneiras de distrair-se com quem pode vir a seguir a eles. É por isso que poucos chegam a aperceber-se de que a verdadeira imagem do amor acontece num momento muito delicado, naqueles segundos em que um está a pôr a lentrisca em riste para fora e o outro se está a preparar para alojá-la na senisga.

As canções e os poemas ignoram isto. Elevam campos, abraços, o pôr do sol, falésias, jardins, estrelas no céu, a magia de ver os aviões, trastes de guitarras, mas esse momento específico, com ela de cuecas no meio das pernas a tremelicar, tal a sofreguidão de o meter, que antecede o momento de arrombar pela primeira vez a pachacha de uma mulher é ignorado ostensivamente por todos os cantores e poetas românticos do mundo. Bem sei que há a crueza das palmadas que se seguem, há o barulho infernal de quem está a levar uma bem dada, gemidos histéricos, ai-ai-ai Patife, que me arrebentas as bordas da chona, há o barulho dos meus taurinos tomates a embater nas nádegas, arranhões e apertos, todo um manancial de ordinarice que passa pela cabeça e que apetece fazer a seguir, a noção de que depois seremos dois estranhos que não voltarão a tocar-se. Mas tudo isso, à volta, num plano secundário, só deveria servir para elevar mais ainda a grandeza daquele momento.

É muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos. Essa é uma das mil razões que confirma a necessidade da experiência. Foder é muito diferente de ver foder. Pelos olhos passam-nos as fodas que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que tememos que se sucedessem com essa escolha: quando a seguir ela estiver a tentar ligar sofregamente vezes sem conta, a perguntar por que não saímos novamente, a querer saber qual foi o problema-parecia-estar-tudo-bem, é que pinámos uma vez e agora parece que temos logo de tomar o pequeno-almoço, pôr roupa suja na máquina, lavar os dentes juntos, refletidos pelo mesmo espelho, em vez de estarem com a boca cheia da minha generosa meita, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivessem ficado com uma deficiência na fala depois de ter o meu Pacheco na boca.

As canções e os poemas ignoram tanto acerca de pinar. Como se explica, por exemplo, que não falem da quantidade de quecas que devemos dar? Não há explicação. Amor também é pinar por aí afora, sem freios nem espartilhos sociais, é brincar com a arbitrariedade e aprender com as pinadas menos boas. Talvez seja uma queca épica, talvez seja uma desgraça, não importa. Mamas são mamas e não haverá televisão alguma que me distraia daquilo. Se me virarem o rabo também serve.  

Havemos de fornicar juntos, esse era o nosso sonho. E quando era assim estava tudo bem. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, precisamente porque fornicámos, pensaria que me restava continuar a fornicar por aí. Agora, neste tempo, acredito que me resta fornicar ainda mais. 

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

É possível a toda a gente tirar a carta. O verbo tirar tem demasiados significados.

2.ª aula - 27 de Novembro

Querido diário:

Hoje dei a 2ª (ou levei? Bom, é indiferente). Voltei a ter aquela impressão de que reencarnei o Galileu Galilei. Mal pus a viatura a trabalhar (e hoje fui eu!), e ela se moveu sozinha sem dar o coice que eu esperava, pensei: "E subitamente, ela moveu-se!".

Ainda passámos pelo parque deserto de ontem, que continuava deserto (até me ocorreu que as notícias correm mais rápido nuns locais da cidade do que noutros). Avistei ao longe um cão, a atravessar uma passadeira de peões, e pensei logo em treinar com aquele. Refiro-me, obviamente, ao treino de obstáculos na via. Mas já não fui a tempo, que ele era muito mais rápido do que a minha aceleração. Hoje já não esperei que o instrutor me dissesse quando havia de aumentar para 2ª, aumentava eu espontaneamente. Ele deve ter achado que eu estava barra no assunto e levou-me para um bairro muito giro, aqui ao pé do meu, do qual eu já tinha ouvido falar, mas nunca frequentara. "Very rural"! Fiquei tão impressionada com a paisagem, que assumi os velhos comandos de passageira e passei a contemplar as pessoas encostadas aos muros, a fumar e a conversar, sem terem nada para fazer, ao invés de tomar atenção ao trânsito. Quando dei por mim, estava parada atrás de um carro estacionado, à espera que ele avançasse. Mas correu bem, embora tenha tido que ultrapassá-lo.

A mim parece-me que esta é uma história que vai acabar bem. Há uma simbiose entre mim e o carro. De que tipo, não sei. Mas sinto que há.

Agora só volto a guiar na 3ª feira, dia 2. Faltam 5 dias, mal posso esperar!

Beijinhos
Blue

~

3.ª aula - 2 de Dezembro

Querido diário:

Nem sei por onde começar a descrever a minha lição de hoje. Acho que acordei com os pés tortos, e deu nisto. Durmo tão pouco e tão mal, que até na condução se reflecte. Estou farta de estudar que a fadiga e a sonolência são dois factores perturbadores da condução, que fazem aumentar o tempo de reacção - aumentar, eu disse bem -, e hoje percebi isso no terreno.

Saiu-me à sorte um carro que tinha que ser eu a embraiar, o que, neste momento, me parece a tarefa mais complicada de levar a cabo, mais ainda do que ler um mapa. O outro, onde andei a semana passada, foi para a oficina. Abstive-me de perguntar porquê, não fosse o instrutor ser sincero comigo. Eu já paguei a carta, não pago mais nada.

Aquela troca de pés entre o pé-a-fundo-na-embraiagem-cheiro-de-acelerador-tira-o-pé-aos-poucos-da-embraiagem-acelera-põe-o-pé-outra-vez-na-embraiagem-tira-o-outro-do-acelerador-mete-a-segunda-tira-o-pé-da-embraiagem-acelera, ai!, mais depressa aprendia o cha-cha-cha ou a rumba quadrada. Como a embraiagem ficou responsabilidade minha, por três vezes meti um "prego" e aquilo roncou alto como um porco. Perguntei, revoltada: "Mas o que é que este tem?", e o instrutor respondeu-me: "Não entrou a mudança.". Aparentemente, fazer "entrar a mudança" é qualquer coisa de muito extraordinário, que eu tenho que aprender rapidamente, mas para a qual ainda não me sinto preparada.

Ele hoje estava inconsciente: fizemos o percurso escola -Colégio Planalto - Av. Padre Cruz - Campo Grande - Av. Brasil - Pote d'Água - Igreja de S. João de Brito - Av. Igreja - Campo Grande - Alameda Linhas de Torres - Sporting - escola. Numa das curvas, apitaram-me. Noutra, apitei eu, inadvertidamente. Outro dia liguei o limpa para-brisas, também sem querer, num dia claro de sol. O problema é que gargalho. São nervos. Ele, não gargalha. Apesar dos nervos.

Mandou-me estacionar junto ao passeio e eu enfiei uma roda na sarjeta. Como se fosse eu que tivesse escavado ali o buraco de propósito, fuzilou-me com os olhos, crucificando-me por palavras: "Isto hoje não correu nada bem". Mas eu defendi-me: "Também, leva-me para aqueles lugares cheios de carros..."

Quinta-feira volto. Até lá, descanso. Conduzir é esgotante, preciso de férias.

Adeus.
Blue


domingo, 4 de outubro de 2015

Aquela pessoa #6

Por Maria das Palavras



Que acaba todas as palavras em -inho e -inha, usando o diminutivo quer esteja a fazer festas a uma criança, a conversar com um amigo da mesma idade ou a resolver questões burocráticas numa repartição das finanças:
"Ora, pega aqui no papelinho e deixa uma assinaturazinha, que eu depois trato de tudinho."
E a seguir vai para o c***lhinho? (só para rimar)

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Soutiens à solta

Por Patife


Ontem estava a chegar a casa após um árduo e duro dia de caralho quando me cai em cima da cabeça um soutien. Oh sorte, isto é que é uma sina. Passo o dia inteiro a pinar, ainda para mais uma delas era casada e mal fodida, o que me obrigou a tirar todos os truques da cartola para a deixar devidamente aviada e com a chona amestrada pelo menos durante uma semana. Foi um dia intenso e agora, cavalheiro e educado como sou, tenho de ir devolver o soutien que caiu do estendal. Pelo soutien consegue-se saber muito sobre uma mulher. Assumi que tinha uns trinta e poucos, que gostava de festa rija e pelo tamanho que tinha o soutien devia sustentar uma bela chicha de teta. Apesar de ter sido um dia longo, quase tão longo como o bacamarte que hospedo entre as pernas, tinha de ir devolver o soutien à rapariga e, claro, ver o par de chuchas que se acomodam dentro daquele soutien de proporções generosas. Entre os estendais com roupa e uma pequena conversa com o merceeiro, rapidamente encontrei as mamas do soutien. Por breves instantes senti-me o príncipe da Cinderela, a andar de porta em porta para encontrar o par de tetas que cabiam em tão elegante soutien. Lá a encontrei e assim que me abriu a porta, estendi o soutien devidamente dobrado e perguntei: “E se um desconhecido lhe oferecer um soutien que já é seu?” Ela ficou meio atrapalhada, até porque estava se shorts e um top sem soutien. Entreguei o soutien e fui para casa pensar na rebaldaria que devia estar a ser debaixo do top, com mamas daquele calibre sem soutien para as controlar. Agora que sei que tenho uma mamas daquelas como vizinhas estarei devidamente atento. E não sou Patife não sou nada, se não enterrar o meu glorioso nabo naquele mamaçal que mais parece uma pista de aterragem de proporções perfeitas para sustentar o meu Pacheco.

Queridos violadores, sequestradores e pedófilos deste país

Por Vera

Apresento-vos a blogosfera.

Um local onde apenas com um clique podem ter acesso a todo um mundo de oportunidades. Um local onde as mães expõem a intimidade dos filhos todos os dias. Um local onde se publicam fotos de crianças, mais e menos íntimas, demasiadas vezes mais íntimas do que aquilo que seria de esperar. Um local onde se contam os segredos mais secretos dos filhos. Um local onde terão acesso a informações preciosas de presas fáceis. Um local onde, com apenas alguma atenção, saberão muito facilmente onde encontrar as crianças. Um local onde os pais partilham a escola que os filhos frequentam, o sítio onde moram, as actividades, os horários e as rotinas dos miúdos. Um local onde ficam a conhecer toda a família e os seus hábitos. Um local onde podem invadir a privacidade das famílias e das crianças sem ninguém notar a vossa presença. Um local onde são os pais que vos abrem, que vos escancaram as portas de casa. Um local onde aparentemente não há momentos de lucidez e ponderação. Um local onde os números de visitas e o retorno financeiro que delas provém compensa tudo o resto. Um local que é alimentado por pessoas que provavelmente não têm amigos, familiares, conhecidos, vizinhos, alguém que lhes explique os riscos que correm, ou que faça seja lá o que for que ponha em causa a sanidade mental e a capacidade de protecção dos menores.

É assim a blogosfera, estejam à vontade, sirvam-se, por favor.