quarta-feira, 1 de julho de 2015

Entretanto, ali por perto…

Por Gajo Porreiro

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Ermelinda sentiu um calor estranho nas pernas e levantou-se de um salto. “Outra vez não, foda-se!” 
A incontinência estava a dar-lhe cabo da vida. Na mercearia onde trabalhava de manhã, a água das alfaces espalhada pelo chão e o cheiro da fruta e do bacalhau davam para disfarçar, mas já tinha passado duas ou três vergonhas que não lhe saíam da memória. A primeira vez foi na Segurança Social, enquanto esperava pelo impresso do RSI. Não fossem as fraldas das gémeas e a coisa podia ter corrido muito pior. A segunda vez, sem dúvida a mais embaraçosa, aconteceu enquanto atendia um cliente, no part-time que faz às quartas e sextas no Monsanto. O homem, camionista Ucraniano de poucas falas, não ficou nada contente de ver as calças mijadas e, além de não pagar, ainda lhe pregou dois sopapos que lhe danificaram irremediavelmente a placa acrílica superior, deixando bem à vista a degradação física a que Ermelinda tinha chegado devido ao uso continuado de drogas pesadas.

“Puta que pariu esta vida!”, Desabafou enquanto se limpava ao lençol da cama onde ainda dormiam a irmã e o cunhado, ambos desempregados e companheiros de dependência. Bebeu um trago de cerveja morna, acendeu um cigarro e foi preparar os biberões.

Era dia de visita conjugal e Ermelinda queria ir bem arranjada. Óscar já não era o homem de outros tempos e precisava de se sentir inspirado para que aquela meia hora fosse proveitosa. Além disso, um dos guardas era cliente habitual das sextas-feiras e nestes tempos de crise não podia arriscar perdê-lo. O cunhado ainda lhe devia duas ‘chuchas’ que ela não estava a ver maneira de receber.

Despediu-se das gémeas e dos dois filhos mais velhos e foi apanhar o autocarro. Passou pelo café e comprou dois maços de SG Ventil, marca preferida de Óscar. Ermelinda sempre foi muito dedicada ao companheiro, mesmo quando ele, toldado pela bebida e pelo ciúme, lhe batia, a injuriava e ameaçava de morte. Nunca colocou a hipótese de o abandonar. Afinal, tinha sido o seu primeiro amor (estavam juntos desde que os pais a entregaram a Óscar, tinha ela treze anos) e uma relação destas é para a vida. Tem de ser.

Como o autocarro ia quase vazio, aproveitou para meter na veia os vinte euros que tinha comprado à irmã e, depois de guardar a parafernália no fundo da mala, encostou a cabeça à janela e adormeceu.

Eram quatro e vinte quando chegou a Alcoentre. Depois de ter passado pelos habituais procedimentos de segurança, entrou no quarto e correu a abraçar Óscar. Falaram durante uns minutos até que ele lhe disse que estava pronto e lhe pediu para tirar a roupa. O sexo foi rápido e cru, sem preliminares ou beijos. Fumaram um cigarro e Ermelinda despediu-se com um “Até para a semana, môr.”

Chegou a casa já tarde, devido a um acidente na N10 que obrigou a que o autocarro estivesse parado mais de hora e meia. Cansada e a ressacar, foi ao esconderijo da irmã ver se havia uma dose que lhe desse para aguentar até de manhã. Não havia. Saiu e foi ter com um dos traficantes da rua, oferecendo-lhe favores sexuais em troca de mais umas horas de descanso.

Voltou meia hora depois, para encontrar a polícia em casa, vasculhando minuciosamente os trinta metros quadrados do T0 onde viviam, à procura de droga, armas ou material roubado. As crianças choravam enquanto o cunhado, algemado, chamava “cabrões de merda” aos agentes, que lhe iam dando uns calduços para o acalmar. Como não encontraram nada, foram-se embora mas levaram-no acusado de desrespeito e injúrias às autoridades.

Ermelinda atirou para o chão um monte de roupa suja para libertar o canto do sofá e sentou-se, chamando a si os pequenos, que entretanto se tinham calado. Nesse momento entrou a irmã, trazendo um bolo de arroz decorado com uma vela de aniversário.

“Parabéns, Mana! Vinte aninhos, hein? 'Tás feita uma senhora, tu.”

10 comentários:

  1. Muito bom. E esse final é uma espécie de murro no estômago. Está muito bom.

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  2. Vim só aqui dizer que esta foto está FAN-TÁS-TI-CA. É mais ou menos como um gajo bom, a malta bem quer, mas não consegue deixar de olhar.

    Agora vou ler.

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  3. 'e, depois de guardar a parafernália no fundo da mala, encostou a cabeça à janela e adormeceu.'
    Vê-se logo que não percebes nada de cavalo pah! Ou então a merda era uma bela merda.
    Muito bom.
    Vinte anos... coitadinha... há tantas, credo.

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  4. Bolas. Este texto devia ser passado em ecrãs gigantes, nas principais capitais do Mundo. (Nas mesmas onde passam imagens de grande impacto, referentes à realidade em questão).

    Sem alardes,para além do alarde explícito. Há muito que não lia algo tão dramático, escrito de forma tão "dia-a-dia".

    Vai lá vai, Gajo...

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  5. Bom, muito bom...um aperto na garganta...há tantas, tantas assim...

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  6. Murro no estômago, parece-me a melhor descrição que tive, ao ler o texto.

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  7. Mimam-me ;-)
    (In)Felizmente cresci numa zona onde as "Ermelindas" e os "Oscares" não rareavam, salvaguardados alguns exageros do texto. Se a mim fez bem, pela tarimba que ganhei, outros foram na enxurrada dos anos oitenta. Tenho fotos de aniversário em criança, onde sou o único de dois ou três que ainda estão vivos ou "cá fora". E éramos uma boa dezena deles, à volta da mesa. Dos limões deixados pelos amigos na entrada do prédio, à repressão policial, passando pela fama de ser tudo menos santo, tive uma infância e adolescência cheias de aventuras, é o que vos digo.
    Já agora, a única coisa que percebia de 'cavalo', era o alívio que sentia nas dores do siso, depois de fumar um 'cadito' e nunca mais que isso ;-)
    E sim, ainda há muito disto, já ali ao virar da esquina.


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  8. É pá, isto é duro de ver e ler. Foco o olhar naquela criança que não sabe bem se é jogar á bola que quer.
    Caramba, esta merda de vida que muita gente leva. As crianças, porra, as crianças. Aperta-se o coração.

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