quarta-feira, 12 de julho de 2017

O Avô, os Incêndios, as velhas Armas e a Paz Social

O Avô desta nossa Pátria, sempre exultante na interpretação heróica da História, encontrou na mansidão das suas gentes um pretexto para cunhar um novo atributo com o qual presentear o Povo.

É um hábito inerente ao cargo. Fora-nos outrora gentilmente oferecido o termo "magistratura activa de influência", pelo anterior "homem do leme", lá longe, no seu saudoso eremitério, gravando a ferros as palavras ensimesmadas que brotam para a sua vingativa biografia política e para o tédio dos seus roteiros, sempre de belas tonalidades, aquecendo-nos o inverno no interior da lareira.

O Eremita Silencioso, mais louvado pela tranquilidade da sua ausência que pelo disparate provinciano da sua sempre inoportuna oratória, conseguiu deixar ao seu sucessor, O Avô, um imenso espaço político por explorar, o da "Proximidade ao Povo". Ah, O Povo. O povo rústico, o povo católico, o povo de bem, o povo que aplaude a sua simples presença enquanto animador de serviço.

E assim, O Avô, que tanto teria a dizer acerca da infeliz situação a que este País chegou, lá se dedicou ao Abraço, à rápida inauguração seguida de outra ainda mais rápida festividade. Terá abraçado já para cima da centena de milhar de concidadãos.

Sabemos que terá de ser afoito. Seu netinho avisara com antecedência, "Avozinho, é só um mandato!", e Avozinho bem se esforça.

Na visão do mundo que perece herdada do tempo que passou enquanto potencial delfim, aguardando a limusina que haveria levá-lo à então presidência do conselho, O Avô trouxe consigo o prazer pela "Paz Social" e pela "'Descrispação' Política" neste País de tépidas águas partidárias, porteiros do regime, e grupos de interesse acomodados no eterno "mexer muito é estragar".

E não é que, nesta bonomia, orbitando como apraz a qualquer anjo zelador, acabou, O Avô, agrilhoado à implacável e sempre incómoda realidade?

Continuamos no lixo, embora um lixo um pouco mais sólido na percepção, que, infelizmente, ainda não coloca pão na mesa.
Temos de crescer mas não há maneira, enfiados como estamos neste complexo de Peter Pan tutelado por figurar patriarcais.
Após décadas de subsídios continuamos de mão estendida e sem infraestruturas, aguardando que as estórias sejam substituídas pelas verdades.

Ocorre uma tragédia nacional, irrepreensivelmente acompanhada pelo Avô, é certo, justiça lhe seja feita, carregando às costas a incompetência e dolosa inércia dos "serviços políticos" que tutelam a protecção civil, causa indirecta de seis dezenas de compatriotas vítimas do horror.

Havia uma árvore, havia um trovão. Garantidamente.
Estava tudo a arder e a pobre árvore já havia sido identificada.
Mas nem o relâmpago chegou à árvore nem o trovão passou por ali.

Sente-se a narrativa oficial vacilar.
É triste, tantos políticos e subalternos a remar para o mesmo lado e afinal não houve relâmpago àquelas horas nem naquele local.

No entanto, ficamos com cinco por cento de probabilidade de o incêndio ter deflagrado como consequência de um relâmpago(?!). Pode até ter-se tratado de uma linha de alta tensão e de uma outra pobre árvore ainda por identificar.

O salta pocinhas que governa esta república estudantil, tal é o caos, desorganização e aparente abuso de substâncias, explicou detalhadamente o fenómeno da trovoada seca na complacência da comunicação social, ainda antes de aparecer um monte de gente, malditos pessimistas, provavelmente em delírio colectivo, a afirmar que trovoada não, só "muito mais tarde e muito longe".

Afinal não demos todos as mãos. Alguns preferiram dar combustível ao mato.

Quando já o próprio sempre jovial Avô se preparava para um retiro de meditação, orbitando por reinos além mar, outro escândalo se abate sobre o País.
Salta pocinhas, óbvio optimista segue para banhos. Crises nacionais são coisa de secretário de estado para baixo.

Tanto alarido criado porque aparentemente já não se pode ir a um paiol das forças armadas não vigiado arranjar pirotecnia para o próximo S. João.

O Avô, apesar de cansado com os seus voláteis súbditos, ainda arranja tempo para ver dois dos grandes, dos maiores, heróis nacionais deste povo rústico.
E, desilusão sobre desilusão, ouve Salvador divagar acerca dos sempre incómodos gases intestinais, e Ronaldo, O Rei, "melhor jogador do mundo, vírgula", amuar por não disputar a final. Compreende-se. Maldito jogo, indigno da presença d'O Melhor do Mundo, aquele que trata Presidentes da República por "você". Santinhos, cabisbaixo na conferência de imprensa, é o retrato da desiludida falta de autoridade, com ar de quem também já quer vir embora. Bastava ter pedido ao Mendes.

E agora, caro Avô, agora que os próprios militares ameaçam protestos, onde irá o meu caro pendurar a bandeira da Paz Social?
Agora que morreram dezenas de pessoas por inépcia, incompetência, procrastinação, desinteresse de políticos de sucessivos governos e seus delegados políticos em organizações operacionais de carácter técnico.
Agora que uma PPP se mostrou não apenas ruinosa para as financas publicas mas mortífera!
Agora que "desapareceram" dezenas de quilos de explosivos plásticos e respectivos detonadores (guarda-se a chave do cofre em cima do próprio cofre), mais de uma centena de granadas ofensivas e dezenas de lança granadas (quem sabe se não terá sido um pobre tuaregue no seu solitário dromedário a passar na velha abertura da cerca).

E agora, meu caro?! Onde está a Paz Social? Onde está a "descrispação" e a "cooperação institucional"?!

A ajuda às Pessoas, para tentarem refazer as suas vidas devastadas, vai demorar tanto como é usual? Ou seja, 'nunca'?

Não sendo tudo negativo, tivemos hoje o regresso do filho pródigo às câmaras televisivas, ar grave adequado às circunstâncias, enquanto o chefe de estado maior general proferia, alguma aflição visível, própria de quem pouca convicção tem naquilo que diz, as mais bárbaras trivialidades.

Afinal foi coisa de pouca monta, pouco mais de trinta mil euros em material de guerra, como se fosse o custo dos explosivos que nos preocupa, dezenas de lança granadas prestes a serem abatidos ao efectivo, umas palavras incoerentes acerca de a segurança não ser da exclusiva responsabilidade das forças armadas, de termos de estar todos envolvidos e de ser necessário responsabilidade acerca das "câmaras".

Quais câmaras, Senhor General?!
As câmaras municipais? A video vigilância das estruturas das forças armadas? Os drones nos corredores da aviação civil? O problema de a Internet estar completamente poluída por selfies desfocadas e fotos de orientação vertical?

Quais câmaras, Céus?!

Os explosivos plásticos também estavam fora do prazo de validade? As granadas ofensivas eram de brincar? Os terroristas vão ter uma grande surpresa quando tentarem utilizar os lança granadas de brincar à português?!

É isso? É como os três cafés diários que "reduzem o risco de morte"? Outra pérola da nossa "comunicação social".

Podemos abrir os paióis à iniciativa de voluntários para levar aquela velha tralha inoperacional toda para a sucata?!

Minha nossa Senhora!
Este País é, e tem sido sempre, liderado por uma súcia de incompetentes de duvidoso carácter e pouca vergonha, que ainda tentam fazer-nos passar por parvos com as estórias da carochinha que conjuram.

Meus Senhores, tenham Vergonha!
Nem que seja poucochinha.

domingo, 4 de junho de 2017

Epístola ao Político Desconhecido


Prezado Amigo,

Com o carinho que o morcego reserva ao mamífero sua vítima, venho pela presente felicitá-lo pela sua candidatura, que me merece o maior apreço e consideração, sem a qual sentiria inevitavelmente o desvario próprio do homem perdido em suas lucubrações.

Louvo vossência, inaudito é certo, por amparar os meus mais exacerbados receios, nesta nova era de lusco-fusco.

Não porque acredite que tenha uma ideologia, a sagacidade ou a iniciativa para colocá-la em prática. Nem porque se me afigure tratar-se de um bem-intencionado pragmático.

Não porque creia que o meu amigo vá alguma vez cumprir as promessas lavradas nas feiras da demagogia com o auxílio do factótum que tem a exclusividade do seu ouvido, cuja alma foi vendida, e logo comprada por gente sombria, por pouco mais que uns parcos tostões. Um, dos tantos, bufarinheiros da Pátria.

Não porque acredite que o meu caro amigo seja algo mais que um títere sem carácter, destramente manuseado por mestres, velhos como o tempo, alérgicos a todo e qualquer princípio moral.

Não porque em momento algum tenha sequer remotamente duvidado que olhará bem por si próprio, cartão num bolso do casaco entalhado "A Pátria", a fogo dos cascos daquele que ocupa o círculo gelado do inferno, reservado aos traidores, e, no outro, "O Povo", insignes conceitos em língua tão rápida no estrépito quanto cega em vassalagem de uma consciência que mais não pode fazer que sorrir, na clandestinidade reservada aos répteis e no sadismo da facilidade pérfida com que ilude os mansos.

Não, meu bom amigo, não é por qualquer destes motivos que voto em si.

Voto em si porque me parece ser o único capaz de nos salvar a todos do delírio sociopata dos seus adversários.

O chauvinista racista, xenófobo e homofóbico de extrema direita.

O lunático de extrema esquerda que não acredita na propriedade privada e sonha com um mundo sem patrões, repleto de funcionários públicos já sem ninguém a quem servir, cantando em torno da fogueira sem pensar no amanhã (embora tenha hipocritamente enviado a filha para a ivy league do grande Satã), tecendo vergonhosos encómios aos camaradas da Coreia do Norte enquanto uma súcia de fanáticos, ou surdos, aplaude selvaticamente. Essa gente do braço do ar na toada “até à vitória final”, qualquer que ela seja.

Mais lhe agradeço por nos salvar dos terrores da sharia e da insanidade que impede tantos maníacos de compreender o propósito da laicidade do Estado e o imperativo moral de respeitar o direito ao livre pensamento do próximo.

Muito obrigado por ser um corrupto sem escrúpulos.
Há gente muito pior.

A Pátria honrai, meu estimado amigo, pois a Pátria irá certamente contemplá-lo.

Deste sempre seu, com admiração e afecto.


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A Era da Sílfide


Raramente percorro a vacuidade dos telejornais nacionais, tão tísicos no jornalismo quanto são avaros no sensacionalismo básico, pueril, prato mal confeccionado e pior apresentado.

Dos interesses das plataformas comerciais e políticas aos enlatados situacionistas que nos servem ao jantar, do "CR7"™ às redes sociais, do gato que trepou a árvore ao sujeito que bebeu duas dúzias de cervejas com a felicidade espelhada no semblante, da nova novela do canal aos comentadores do regime, mérito lhes seja reconhecido pela paródia da argumentação e facilidade na forma ausente de conteúdo, sinto-me ocasionalmente exasperado com aquilo que vejo, e, em simultâneo, admiro a nova construção que integra a censura do conhecimento sem dela necessitar enquanto instituição formal.

Mas, ocasionalmente, interpretamos, ainda que estupefactos, na ausência, na inanidade daquilo que observamos, o espírito de uma era, maculada por fatídicas reminiscências das trevas de um passado comum não tão distante quanto seria de esperar.

E foi neste enlevo, quase pateta por incredulidade, que consegui observar lunáticos da esquerda radical, aqueles que aplaudem de pé um escabroso ditador como Fidel, o carrasco de um povo, "um homem de convicções fortes", gente que tem como obsceno modelo de desenvolvimento a Coreia do Norte, a Venezuela e a antiga união soviética, alguns deles traidores da sua pátria nos tempos da guerra fria, como tristemente nos recorda Mitrokhin, em simultâneo lamentar a morte de um ditador e recusar, quais crianças birrentas sem educação, levantar o respeitável cu da respectiva cadeira que ocupam naquele circo em que se transformou a AR, em sinal de um mínimo de respeito pelo discurso de um chefe de estado de uma Democracia.

Não que aceite a monarquia, mas preferindo-a mil vezes à "revolução sempre", é ininteligível e assustador o estertor de vergonha que impede certos grosseiros fundamentalistas de compreender a dignidade inerente ao cargo que ocupam.

Enfim, talvez tenham razão. A pedagogia é para as escolas, e a vergonha e a dignidade há muito que não moram aqui.

Concomitantemente, na paródia das aparências e dos simulacros, da felicidade tola ou que pretende enganar tolos, temos um animado Senhor comentador televisivo no mais insigne cargo da nação, um pouco retraído desde a publicação daquele ominoso decreto lei que além de não servir para o que quer que seja logo foi repudiado por todos aqueles que o aprovaram, gente de curta memória e pouco pudor, dizia, temos aquele Senhor, qual Nossa Senhora rodeada de pastorinhos, a receber banhos de alegria juvenil, numa bárbara instrumentalização de crianças para realçar a sua imodesta "abertura ao povo", que acabou por concretizar uma das mais nefastas e anedóticas réplicas das cerimónias do tempo da outra "senhora".

Quem sabe, um destes dias teremos a esquerda radical a louvar Salazar pelas suas fortes convicções.

É neste ponto que me interrogo sempre, porque se me apresenta como mutuamente exclusivo: prefiro uma liderança de corruptos e inaptos rapazinhos das "juventudes"  ou a liderança sombria de um fanatismo sancionado pelo sindicalismo da função pública?

Ou será simplesmente tempo de começar a preparar lenha para as "fogueiras"?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Serviço público

Por Gajo Porreiro




O parque estava estranhamente vazio, para um domingo à tarde. Um grupo de miúdos improvisava um Benfica-Sporting e a passarada bicava migalhas de pão, atiradas ao ar por uma senhora que ia tricotando enquanto vigiava os netos.

- Quando era puto, chegámos a fazer aqui campeonatos entre ruas. – disse José, ao mesmo tempo que o “Benfica” marcava um golo – Fazíamos equipas de dez jogadores, mudávamos de campo aos três e acabava aos seis. Era canelada de meia-noite, só te digo. E não havia cá foras-de-jogo, ó caraças. Atacavam e defendiam todos. Depois íamos para casa, sujos e cheios de nódoas negras. Quais playstations, qual caraças…

Tobias não ligava muito à bola, mas ficou ali com o amigo durante uns minutos, talvez à espera do 2-0.

- Aquele baixinho faz-se, não achas? Sacana do puto, finta bem e corre que nunca mais acaba. Faz lembrar o Chalana.
Bem, vamos mas é andando, que isto ainda é capaz de chover.

Junto ao portão de saída, aparece um cão a correr atrás de uma bola e Tobias, assustado, encosta-se a José ao mesmo tempo que dirige uns impropérios ao animal. José sabia que o amigo não se sentia à vontade com cães, por muito sossegados que fossem. Talvez tivesse sofrido um trauma na infância do qual nunca recuperou, sabe-se lá.

- Ó amigo, prenda lá o cão, se faz favor! - e olhando para Tobias: - E tu tem calma, pá…

O dono, homem na casa dos trinta anos, acompanhado pela mulher, chama o cão com dois assobios, sem resultado. A ansiedade de Tobias aumenta a cada segundo, e, perante a passividade do homem, José insiste: - “Mas você prende ou cão ou quê?”

- Não se preocupem, que ele não faz mal. – assobia outra vez e o cão volta a ignorá-lo, continuando a correr e a ladrar.

- Ouça, não sei se ele faz mal ou não, mas sei que devia andar à trela e não solto. E pela terceira vez, prenda o cão, se faz favor! 

- Tenha lá calma, homem…  se eu não o prender o que é que você faz? Bate-me, quer ver?

José levou o nervoso Tobias até ao banco de jardim mais próximo e pôs-lhe a mão sobre o ombro: - Ficas aí sossegado que eu vou tratar do assunto, ok? Tem calma e não saias daqui.

Arrancou em direcção ao outro, em passo acelerado, e, depois de alguns segundos de esbracejos e troca de pontos de vista, o dono do cão sentou-se ali mesmo no meio do chão, provavelmente a pensar que era melhor começar a usar a trela, como aliás, manda a lei. Sempre disposto a ajudar, José foi buscar o cão e levou-o à dona, visto que o dono se mantinha quieto e pensativo.

Voltou ao banco onde tinha deixado Tobias, libertou-o do apoio de ferro onde lhe tinha prendido a trela e retomaram o caminho.

- Quando nos calhavam os ciganos que moravam no bairro que havia ali em cima é que era tramado. Às vezes nem se chegava a começar o jogo. Belos tempos, aqueles…

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A perfeição dos tempos modernos

É aquela que toda a gente partilha, diariamente, nas redes sociais. É aquela que apresentamos aos outros em forma de publicação. Parece que actualmente todos somos felizes, todos comemos coisas maravilhosas, todos vamos a locais espectaculares, todos temos a família perfeita, os amigos ideias, parece até que hoje em dia somos todos atletas de alta competição ou especialistas em tudo e mais alguma coisa, parece que hoje em dia todos temos uma vida perfeita, a perfeição dos tempos modernos.
E é aquela que nos exigem todos os dias, porque uma fotografia mal tirada, um erro ortográfico, umas gorduras a mais, uma atitude que fuja daquilo que está previsto, uma afirmação com a qual os outros não concordem, um erro, uma forma de vida diferente, uma fuga às supostas regras, um simples assunto banal ou uma história que deveria ser privada se pode tornar viral, se pode parecer com uma notícia capaz de fazer mudar o mundo, parece que hoje em dia todos nos exigem que tenhamos uma vida perfeita, todos nos apontam os erros, o dedo, todos nos criticam, todos nos dizem o que está bem e o que está mal em nós, todos esgotam os assuntos de forma irremediável, é a perfeição dos tempos modernos. 
Parece que hoje em dia toda a gente a pode exigir, a tal da perfeição, porque já ninguém comete erros, já ninguém tem dúvidas sobre nada, toda a gente está em posse dela, da tal perfeição.

Talvez por isto eu goste cada vez mais de pessoas imperfeitas, por me identificar com elas, talvez porque a perfeição dos tempos modernos me assuste e eu não queira fazer parte disto.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Aquela pessoa #7



Que quer sempre ganhar o campeonato mundial das doenças.

Eu também estive assim com tosse mas pior. Cheguei a cuspir sangue. Sangue com ranho, claro, porque estava mais entupida que tu - tinha ranho até à testa. Saía-me pelos poros capilares e as pessoas pensavam que era cabelo oleoso.
Sei que agora não se nota, mas fiquei com danos irreversíveis nos pulmões. Não pior do que aquela vez em que tive uma infeção nos brônquios de fazer envergonhar qualquer doente terminal, claro.
Por isso não te queixes.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

que às vezes, é bom lembrar

- Falhamos a vida, menino! 
- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: «vou ser assim, porque a beleza está em ser assim». E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente.” 

― Eça de QueirósOs Maias

diferente não é mau. só diferente.

sábado, 17 de outubro de 2015

Duas lições de vida

4.ª aula - 4 de Dezembro

Querido diário:

Cheguei à aula dois minutos antes de ela começar. Avisei que ia tomar café porque estava a dormir em pé, e ameacei que, sem ele, continuaria a dormir sentada, ao volante. Procurava, assim, justificar igualmente a minha inaptidão de anteontem. O instrutor disse-me: "Força!". Se calhar, pensava que eu levava alguns dez minutos a tomar o café, mas enganou-se. Dois minutos depois, lá estava eu, pronta para mais uma. Ele disse que ia só à casa-de-banho, eu respondi "Força!", e ele literalmente correu para lá. Acho que anda cheio de nervos, coitado. Lá coisas da vida dele, certamente.

Sem qualquer justificação aparente, o carro que usei nas duas primeiras aulas continua na oficina. Portanto, apanhei outra vez com o da embraiagem só para mim. Hoje só meti um "prego". Amanhã não meto nenhum. Ele faz uma cara ai-minha-rica-caixa-de-velocidades, mas não se pronuncia grandemente. Suponho que vai consciente, inclusivamente porque me mandou outra vez para o deserto. Fartei-me de dar voltas e mais voltas naquele parque vazio. Deve ser um frete igual conduzir em Dakar (naquilo do Paris). Estive tentada a meter uma terceira, só para lhe mostrar do que sou capaz, mas não meti (porque não sou capaz).

Mesmo assim, ainda se aventurou comigo até ao Sporting velho. Já me confessou que é sportinguista, só pode ser por isso que me faz levá-lo a passear entre estádios verdejantes. Nessa rua, há cerca de três séculos em obras, enfiei uma roda num buraco, e ele gemeu. Capaz de aquilo na casa-de-banho não lhe ter corrido de feição. 

Eu sou uma condutora-aprendiz-instruenda inexperiente, mas não faço só disparates. Ainda faço bastantes, mas vou ao lugar. Por falar nisso, já estaciono o carro nos buracos mais pequenos que ele encontra. Pareço uma costureira, a enfiar a linha no buraco. É a melhor comparação que me ocorre agora.

Amanhã volto. 
Blue

~

5.ª aula - 5 de Dezembro 

Querido diário:

Bom, eu progrido na condução de dia para dia. Conforme prometi ontem, hoje não meti nenhum "prego". Ainda me dirigi para o lugar do passageiro, quando o instrutor me lembrou que eu ia conduzir, não passear, mas foi tudo. É só um vício que tenho que corrigir, apesar de estar convencida que não vou chumbar no exame por causa deste engano.

Quando acordei de manhã, pensei que ia, finalmente, fazer o meu primeiro dia de condução com chuva — que ia estrear os limpa-pára-brisas. Mas não, esteve sempre a ameaçar tem-te-não-caias, mas não choveu.

Hoje meti terceira! Íamos a descer a Av. Padre Cruz, ele disse-me aquelas palavrinhas mágicas, e eu engatei a mudança dos meus sonhos, em pleno complexo Buzz Lightyear, para o infinito e mais além!. Quinta lição, quinta dimensão. Mais adiante, um sinal vermelho. Travei, suavemente, e verifiquei que a cabeça do instrutor já não parece tanto uma bola lançada à parede quando eu travo. Nem quando eu arranco.

À entrada de uma curva, buzinei outra vez sem querer. Mas descartei-me assim: "Isto foi para assinalar a minha chegada. E também, ia ali um ciclista, era a ver se o fazia cair". Ele já vai começando a descontrair-se e até se ri de algumas coisas que eu digo. Falámos sobre crianças a aula toda. Ele só tem um filho, com 14 meses, de modo que eu tenho muito que lhe ensinar.

Mesmo na condução, tenho muito que lhe ensinar. Acredito sinceramente que ele vai ficar mais rico quando acabarmos estas aulas. E vai empobrecer quando me vir partir — a toda a velocidade — da vida dele.

Até terça.
Blue

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Tão simples, a perfeição.



Quanto mais as pessoas resistem à realidade, mais tempo demoram a vivê-la.

A imagem acima foi uma amiga minha que colocou no Facebook. É escusado dizer que nunca conheceu o seu homem perfeito
Vou pedir-lhe que deixe de procurar adjetivos (lindo, sexy, carinhoso, trabalhador, perfeito). Vou pedir-lhe, aliás, que deixe de procurar. Que se renda à única definição de perfeito que um homem tem (quer preencha ou não todos os itens da checklist imaginária). Um homem que a tenha em primeiro lugar. 

Não é fácil encontrar. Mas, uma vez encontrado. não há erros de identificação, nem irrealismo nesta perfeição. Juro. Eles andam aí.

domingo, 11 de outubro de 2015

tristezas não apagam facebooks*

triste tentativa de adaptação do "tristezas não pagam dividas".

há pessoas que propagam a própria infelicidade de forma crónica. nunca nada, em qualquer coisa que façam, vivam, sintam, está bem. a infelicidade corre-lhes no sangue como um parasita e sentem uma imensa dificuldade em viver para além disso. acarinham até, às vezes, aquele parasita com carinho, numa espécie de compreensão pelo responsável pelas próprias dores.
há pessoas muito tristes:

a rapariga, gorducha, feiinha, casada aos vinte, com quatro filhos aos vinte e cinco, está desempregada desde que estudou. é o marido, balofo de álcool e gordura, cara imensa, que a mantém, e à prole, trabalhando fora do país, que em portugal não há dinheiro para um só manter cinco.
a rapariga entra numa espécie de depressão que alimenta no facebook com concentração. espeta em fotografia de perfil as trombas maquilhadas do dia de casamento e em destaque a fotografia da prole, os putos todos, alinhados, muito direitos.
todos os dias escreve qualquer coisa. que a vida é uma merda, que tem saudades do marido e que lhe apetece morrer. em cada comentário destes alguém vem, muito solicito, com palavras de amizade "pk coisa?" e "k s passa?"
todo um rol de queixas: que o país é feio, que o marido está longe, que tem de, sozinha, tomar conta de quatro crianças. assim, ali exposto no facebook para os quinhentos e dez amigos. para quê ler um drama ou ir ao cinema quando basta abrir o pc? 
a mulher prossegue, todos os dias é esta dor.
enfim, o marido volta a casa, depois de tanta queixa, tanta ânsia, tanta tristeza e decide levá-la com ele, juntamente com a criançada toda. respiramos de alivio. deixa de haver ameaças de morte, frases de tristeza e citações brasileiras de saudade. 
portanto, tudo está bem quando acaba bem, certo?
não. na última semana a senhora, cansada da rotina, dos dias claros, da ausência de comentários e atividade no facebook, decidiu retomar a ladainha: pois que agora tem saudades de casa, não gosta de onde está, que lá não se faz nada e quer voltar para portugal. sempre com as trombas de casamento e a prole alinhada em fotografia de fundo.
tudo assim, ali escrito, com muitos ks e pks e estados e imagens de nossa senhora de fátima. e toda a gente outra vez, a perguntar k se passa, k tem ela, k dores são aquelas, que o país não foge.
todos os dias. é ou não é bom?

sábado, 10 de outubro de 2015

Diz-me como escreves, dir-te-ei quem és.

Quando aceitei o convite para escrever no Desblogue D'Elite instalou-se o pânico da página em branco, o que fazer quando não me apetecesse escrever sobre nada de especial? Como contornar a falta de inspiração? Depois pensei cá para os meus elos de corrente que não só nessas ocasiões mas sempre que achasse por bem, podia publicar um post escrito por mim há muito tempo. Sendo assim, aproveito que é sábado e que toda a gente que tem uma vida fora da internet está a fazer outra coisa qualquer que não a ler blogs e, como tal, pelo menos 2% das pessoas habituais não vão ler isto, para republicar um post.



Cenário: O dia nasce com um sol luminoso e quente depois de muitos dias de chuva. A blogosfera acorda para a vida.

- "Hoje está finalmente um dia lindo de sol, esperemos que tenha vindo para ficar" - Escrevem os que não têm nenhum post planeado e não fizeram nada de interessante desde o(s) dia(s) anterior(es).

- "Está um dia lindo de sol, aproveitem porque já fui confirmar e parece que é mesmo sol de pouca dura" - Escrevem os que gostam de dar as notícias em primeira mão.

- "O sol quando nasce é para todos." (Acompanhado de uma bela fotografia do sol) - Escrevem os fotógrafos.

- "Está muito calor para andar de gravata" - Escrevem os empresários.

- "Finalmente chegou o sol, posso ir treinar para a rua" - Escrevem os desportistas.

- "Queridos seguidores, finalmente chegou o sol, preparem-se para ver todas as peças que comprei nos últimos dias e ainda não tive oportunidade de vestir" (Acompanhado de uma fotografia com o look do dia, último grito na moda) - Escrevem as Fashion Bloggers.

- "O sol nasce brilhante / Veio só para te ver / Pelo mesmo motivo nasci eu / Só para te conhecer" - Escrevem os poetas.

- "Com este sol tão quente vou dar uma boa pinocada com a vizinha do 2.º Esquerdo" - Escrevem os Sexo Bloggers (não sei se é o termo certo).

- "Finalmente chegou o sol, posso ir passear com a minha princesa para o parque" - Escrevem as mamãs.

- "Com este calor fantástico vou publicar várias saladas e pratos leves para vos mostrar" - Escrevem as cozinheiras.

- "Ai... credo, com tanto calor ainda vou ter um colapso, não aguento mais, já me dói a cabeça, nem consigo trabalhar" - Escrevem as deprimidas.

- "Queridos seguidores, agora que finalmente o sol resolveu aparecer tenho montes de planos para o fim-de-semana, nem sei por onde começar, por favor, deixem-me sugestões" - Escrevem as indecisas.

- "Hello Sunshine!!!" (Acompanhado de uma bela fotografia de pés descalços na areia) - Escrevem as inspiradas.

- "Eu gosto é do verão, de passear de prancha na mão... (Acompanhado do video clip da respectiva música)" - Escrevem os musicais.

- "Finalmente chegou o calor, já posso ir para a praia passear com o D. e comer um gelado" - Escrevem as românticas.

- "A quinta-feira começou com sol, a norte ainda aparecem algumas nuvens pela manhã, mas ao longo do dia o sol vai brilhar por todo Portugal continental, as mínimas são de 17ºC e as máximas de 29ºC. Na madeira o sol também brilha, mas nos Açores continua a chover torrencialmente." - Escrevem os cientistas.

- "Só me faltam dois dias para acabar os exames e depois posso aproveitar este sol durante três longos meses" - Escrevem os estudantes.

- "Com um sol destes lá fora já não aguento estar aqui fechada dentro do escritório" - Escrevem as administrativas.

- "A minha pele arde quando me tocas, os meus olhos não param de brilhar quando te observo, quero sentir-te em cada poro do meu corpo. Sol..." - Escrevem as sonhadoras.

- "Protejam a natureza se querem que o sol volte a nascer. Perceberam?" - Escrevem os activistas.

- "Finalmente vou perder um pouco de apetite, com este calor" - Escrevem as que estão a fazer dieta.

- "Por favor, com este tempo fantástico se decidirem passar uns dias na praia não abandonem os vossos melhores amigos" - Escrevem os protectores dos animais.

- "O sol demorou a aparecer, acho que a culpa é do governo e do aumento nos impostos, acreditem que este facto se vai reflectir na economia" - Escrevem os preocupados com a nação.

- "Está um dia lindo por Lisboa, mas estou a entrar no avião para Londres, nem acredito que lá está um tempo horrível, ainda na semana passada quase morri de frio por lá, mas depois vou para Paris, espero que o tempo por lá esteja perfeito para pelo menos poder tirar umas fotos para vos mostrar" - Escrevem as viajadas.

- "Obrigado blogosfera, se não fossem vocês nem reparava que estava sol" - Escrevem os humoristas.

- "Foda-se para isto, já não posso ler post's sobre a merda do sol e da vidinha delas" - Escrevem os rabugentos.

- "Ai... Não querem ler sobre o sol não venham cá, o blog é meu e eu escrevo sobre o sol durante uma semana seguida se me apetecer, não gostam não venham cá, é melhor do que estar aí a criticar seus anónimos inúteis e imbecis" - Sem comentários.

- Nenhum post sobre o sol (Blogger com uma vida super interessante e ocupada que passou imenso tempo a fazer qualquer coisa de útil pelo país, tipo, pensar numa folga para aproveitar o sol)

- Post sobre as várias perspectivas de um simples dia de sol - Escreve A DESOCUPADA.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

25 por cento é muita gente


"De acordo com o Relatório da Agência Europeia para Segurança e Saúde no Trabalho, na Europa 25% dos trabalhadores dizem sofrer de stress no trabalho durante a maior parte ou a totalidade do seu horário de trabalho, e uma percentagem semelhante relata que o trabalho afeta negativamente a sua saúde." 

Gostava muito de vos escrever coisas bonitas hoje, mas na verdade está muito escuro e eu não vejo nada.

Um abraço a todos os que sofrem de alguma maneira, os que sofrem de qualquer maneira, e sobretudo os que sofrem sobremaneira.
Aquilo que tenho para dizer é que há, quase de certeza, num qualquer lugar, alguma atividade que nos faça realmente felizes.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Havemos de fornicar juntos

Por Patife



Esta noite acordei com um pesadelo tenebroso. O José Luís Peixoto estava a editar os meus textos. Garanto-vos que acordei com urticária psicossomática e uma camada de nervos tão grande que a insónia se prolongou manhã adentro. Para me entreter durante a insónia, comecei a pensar que se o Bocage e o José Luís Peixoto fossem um só, haviam de ter escrito textículos de profunda sensibilidade que se tornariam numa epopeia de exaltação nacional envolta numa carapaça estilística mais dura que o meu bacamarte. E se o Bocage e o José Luís Peixoto fossem um só, teriam escrito coisinhas lindas assim:

Havemos de fornicar juntos.

Normalmente, toda a gente está demasiado preocupada em colocar a sua barra na "cliente seguinte", estão ansiosos, nervosos, têm medo que aquele que está à frente lhes leve os pares de mamas, têm medo de encontrar um vestígio daquele que foi primeiro. Enquanto não lhes arrancam as cuecas e espetam a sua estaca, não descansam. Depois, não descansam também, inventam outras maneiras de distrair-se com quem pode vir a seguir a eles. É por isso que poucos chegam a aperceber-se de que a verdadeira imagem do amor acontece num momento muito delicado, naqueles segundos em que um está a pôr a lentrisca em riste para fora e o outro se está a preparar para alojá-la na senisga.

As canções e os poemas ignoram isto. Elevam campos, abraços, o pôr do sol, falésias, jardins, estrelas no céu, a magia de ver os aviões, trastes de guitarras, mas esse momento específico, com ela de cuecas no meio das pernas a tremelicar, tal a sofreguidão de o meter, que antecede o momento de arrombar pela primeira vez a pachacha de uma mulher é ignorado ostensivamente por todos os cantores e poetas românticos do mundo. Bem sei que há a crueza das palmadas que se seguem, há o barulho infernal de quem está a levar uma bem dada, gemidos histéricos, ai-ai-ai Patife, que me arrebentas as bordas da chona, há o barulho dos meus taurinos tomates a embater nas nádegas, arranhões e apertos, todo um manancial de ordinarice que passa pela cabeça e que apetece fazer a seguir, a noção de que depois seremos dois estranhos que não voltarão a tocar-se. Mas tudo isso, à volta, num plano secundário, só deveria servir para elevar mais ainda a grandeza daquele momento.

É muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos. Essa é uma das mil razões que confirma a necessidade da experiência. Foder é muito diferente de ver foder. Pelos olhos passam-nos as fodas que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que tememos que se sucedessem com essa escolha: quando a seguir ela estiver a tentar ligar sofregamente vezes sem conta, a perguntar por que não saímos novamente, a querer saber qual foi o problema-parecia-estar-tudo-bem, é que pinámos uma vez e agora parece que temos logo de tomar o pequeno-almoço, pôr roupa suja na máquina, lavar os dentes juntos, refletidos pelo mesmo espelho, em vez de estarem com a boca cheia da minha generosa meita, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivessem ficado com uma deficiência na fala depois de ter o meu Pacheco na boca.

As canções e os poemas ignoram tanto acerca de pinar. Como se explica, por exemplo, que não falem da quantidade de quecas que devemos dar? Não há explicação. Amor também é pinar por aí afora, sem freios nem espartilhos sociais, é brincar com a arbitrariedade e aprender com as pinadas menos boas. Talvez seja uma queca épica, talvez seja uma desgraça, não importa. Mamas são mamas e não haverá televisão alguma que me distraia daquilo. Se me virarem o rabo também serve.  

Havemos de fornicar juntos, esse era o nosso sonho. E quando era assim estava tudo bem. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, precisamente porque fornicámos, pensaria que me restava continuar a fornicar por aí. Agora, neste tempo, acredito que me resta fornicar ainda mais.